O mercado global de alimentos enlatados
Hoje, o mercado global de alimentos enlatados atingiu um faturamento superior a US$ 500 bilhões. O mercado de alimentos processados representa 32% do mercado total de alimentos. Os Estados Unidos, sozinhos, respondem por aproximadamente metade desse volume, com mais de 17.000 instalações de fabricação e processamento de alimentos e bebidas no país, onde é o principal ator nesse mercado. A China é o segundo maior produtor mundial de alimentos, depois da Índia. O processamento de alimentos na China ocupa o quarto lugar em termos de produção, enquanto a Índia ocupa o quinto.
O surgimento de novas e mais sofisticadas técnicas de conservação de alimentos, visando garantir a segurança e a qualidade no momento da entrega, levou à estimativa de que 40%
de todos os alimentos consumidos no mundo necessitam de embalagem, processamento e/ou conservação. Embora isso encareça os alimentos para os mais pobres, ainda há um potencial significativo de crescimento no uso de produtos químicos que inibem a proliferação de bactérias, leveduras, fungos e microrganismos. Os maiores segmentos desse mercado são laticínios, produtos de panificação, salgadinhos, confeitaria e bebidas.
As vendas de conservantes químicos para alimentos nos Estados Unidos ultrapassaram US$ 400 milhões e a projeção é de que ultrapassem US$ 1 bilhão globalmente, na forma de alimentos embalados na China, Índia e Brasil, em um ritmo sem precedentes, aumentando ainda mais a demanda por conservantes. O custo da refrigeração é aproximadamente dez a doze vezes maior que o custo dos conservantes químicos, impulsionando a demanda por soluções químicas no projeto e na manutenção da cadeia de frio. Estima-se que, somente nos Estados Unidos, a indústria de processamento de alimentos gastou US$ 6,9 bilhões em refrigeração em 2008. O maior gasto para garantir a segurança alimentar é a implantação e integração em larga escala de plásticos em todas as fases do processamento de alimentos. Globalmente, esse é um empreendimento de US$ 110 bilhões. A necessidade de preservar alimentos é crucial, mas, no caso das vacinas, é uma questão de sobrevivência. O custo de distribuição de uma vacina pode variar de US$ 180 a US$ 340 para a sociedade em todo o mundo. A administração de medicamentos depende da cadeia de frio. Como agentes químicos não podem ser usados em vacinas, o controle de temperatura continua sendo a técnica de preservação mais comum. Estima-se, porém, que 50% das vacinas perdem parte ou toda a sua eficácia devido à falta de refrigeração. Nos últimos anos, diversas empresas comprometidas instalaram cerca de 3.000 refrigeradores movidos a energia solar em países em desenvolvimento, a um custo de US$ 5.000 por unidade, para garantir a disponibilidade de vacinas de qualidade. Contudo, são necessárias abordagens mais inovadoras para assegurar a disponibilidade de vacinas em todo o mundo.
Inovação
Tem havido um fluxo constante de novas técnicas de conservação de alimentos e medicamentos. As indústrias de plásticos e químicas têm oferecido uma ampla gama de aditivos sintéticos para substituir conservantes naturais, antimicrobianos, bacteriocinas, revestimentos comestíveis e enzimas antimicrobianas. As preocupações dos consumidores com os aditivos sintéticos impulsionaram inovações em direção ao controle de pH, tratamento térmico e congelamento, uso de biotecnologia, filtração por membrana, luz de alta intensidade, ultrassom, embalagens em atmosfera modificada, campos elétricos pulsados e alta pressão hidrostática.
Bruce Roser, um pesquisador biomédico, desenvolveu vacinas que não precisam de refrigeração, baseadas em açúcares (trealose). Suas moléculas ficam aprisionadas em um vidro solúvel que se ativa com a chuva. Isso substitui a cadeia de frio, antes essencial, por uma abordagem "sem cadeia de frio". Sua vacina é revestida com esses açúcares para formar esferas inertes, criando minúsculas partículas que podem ser acondicionadas como injetáveis e armazenadas na maleta do médico por anos. O Dr. Roser aprimorou o processo aquecendo e secando as vacinas em baixas temperaturas, de forma semelhante à liofilização de alimentos em pó. Trata-se, essencialmente, de minúsculas microesferas de vidro nas quais a vacina está encapsulada.
A tecnologia de liberação lenta da vacina é uma combinação engenhosa de um método usado por plantas e alguns animais para sobreviver em condições áridas e o aproveitamento do mecanismo natural do corpo para reparar e remodelar ossos fraturados. Uma planta chamada samambaia-da-ressurreição (Pleopeltis polypodioides) consegue sobreviver no deserto em estado de dessecação por anos, preservando a umidade em uma solução de açúcar solidificada. O uso de fosfato de cálcio — o composto que forma os ossos — para fabricar as partículas permite que o material seja decomposto naturalmente pelo corpo. O aminoácido acelera a reação, permitindo que a taxa de liberação seja controlada variando-se a quantidade.
O primeiro fluxo de caixa
Estima-se que US$ 300 milhões em ajuda, destinados ao fornecimento de vacinas para países em desenvolvimento, sejam desperdiçados porque a medicação não possui a potência necessária para fortalecer o sistema imunológico após a administração. O desenvolvimento de um sistema de vacinação baseado em açúcares que se regeneram com água economiza dinheiro e reduz os custos de energia. Quando estiver em operação, o sistema fornecerá o dobro da quantidade de vacina pela metade do custo.
Bruce Roser desenvolveu com sucesso um modelo de produção que utiliza um sistema de liofilização de última geração da Niro (Dinamarca) para preparar vacinas que não dependem mais da cadeia de frio, desde a fabricação até a distribuição. Este sistema da Niro é um equipamento de ponta na indústria alimentícia. Ele então fundou a Cambridge Biostability Ltd. (CBL) e obteve diversos financiamentos. Chegou a atrair investidores indianos para testar o desempenho do modelo. Infelizmente, o capital necessário para obter as aprovações necessárias excedeu os fundos do banco, e todo o portfólio de patentes foi transferido para um novo investidor após a falência da CBL. A Nova Laboratories, uma empresa derivada do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS), considerou as patentes suficientemente atraentes para superar três concorrentes estrangeiros e adquirir essa inovação.
A oportunidade
Embora a possibilidade de fornecer vacinas aos pobres sem refrigeração mereça todo o nosso apoio, a verdadeira contribuição para o futuro reside em repensar a conservação de alimentos sem a cadeia de frio, sem refrigeração, sem compressores, sem alto consumo de energia e sem a necessidade de quaisquer produtos químicos. No entanto, as embalagens ainda serão necessárias. O impacto da eliminação da cadeia de frio na saúde nos países em desenvolvimento representa milhões de vidas salvas. Por outro lado, se considerarmos a oportunidade de usar essa técnica comprovada e fornecer o sabor e a textura desejados pelos clientes, mas indisponíveis nos fornecedores, percebemos que essa inovação poderia se espalhar rapidamente pelo mundo, graças à enorme economia de energia que tornaria obsoletos grande parte dos caros equipamentos da cadeia de frio.
A solução empreendedora é "substituir algo por nada", substituindo a necessidade de refrigeração e produtos químicos por um sistema de conservação que não requer nenhum dos dois. Na próxima vez que você for ao seu supermercado favorito, imagine a quantidade de dinheiro e emissões de carbono economizadas se e quando não houver mais freezers. Isso economizaria energia e permitiria o fornecimento de produtos de qualidade localmente a um custo menor, graças a uma técnica de conservação que existe há milhões de anos em animais e plantas. Talvez seja hora de aprendermos a ser tão inteligentes quanto algumas plantas e animais.

